jurisdições antigas revisitadas. tratamentos da mente numa manta de retalhos e de trapos. o retrato possível do quarto. sempre o quarto, esse espaço confinado de quatro cantos onde tudo se pode passar.
quinta-feira, março 11, 2010
abri a porta
um marcador de um livro. algum caruncho no livro branco. palavras, que já não são minhas, cujos relevos cortam-me a respiração. o costumeiro revisitar do que já passou.
um final ponderado
bendito sejas tu. uma tríade de palavras compreendida entre o mistério e uma certa verdade. lentamente desligamos da realidade que nos acolhe desde o início.
num deslize acidental, sinto o calor inesperado de um romance que já não me é desconhecido. duas flores no terraço, o gato fugidio e o grito para se ir tomar o pequeno-almoço.
um acordo ao qual me oponho ferozmente.
duas folhas com notas
num simples dedilhar escondem-se palavras e notas. um coração despido e crú. tiradas e versos escritos em tinta permanente. criteriosamente seleccionados os livros, as estantes e o chão de madeira clara. de cima para baixo encontro três abstracções inconfundíveis e sombras indecifráveis. descortino o segredo.
sinto a calma lá fora, o alcatrão seco e o silêncio que nos domina sempre.
sexta-feira, fevereiro 26, 2010
olhos postos no céu
um assalto. caras cobertas e a palavra mistério ali tão perto. um chão coberto de rosas, num esteio de um qualquer patamar. o andar está sem apoios, e nada vejo senão a cor branca. perdido no meio de um pedaço de terra conhecido.
as canas e algumas rosas despontam com o nascer do sol.
espelho
um silêncio impossível de quebrar. uma má disposição ali tão presente, tão viva e pesada. cerrado antes, aberto agora. bucólico momento. repetição de palavras finais. bustos e gralhas gramaticais numa ilusão ponto pêtê.
quinta-feira, fevereiro 18, 2010
o sopro do vento
caminho lentamente e revejo tudo. mais à frente no tempo, sinto o sol a bater-me na face. deparo-me sozinho num campo de areia. eu e o vento. limpando as lentes constato que a lua está ao meu alcance. não estou só, penso. queria escrever mas só tenho grãos de areia e os meus dedos. chega o desmaio. trepido. arrebito. foi o meu companheiro de viagem, o vento.
se faz favor.
se faz favor.
vasos de um funeral
perdido uma vez mais na imensidão dos meu sonhos. as pedras de calçada húmidas e aquele orvalho que nos consome. o odor do húmus.
revolto-me novamente. agito a bandeira mas ela espantosamente não se mexe. as flores estão murchas. a água secou. os vasos estão dispostos no muro, religiosamente como um terço. a minha vista alcança um funeral vestido de preto. a música do soluçar. volto as minhas costas e fixo-me numa parede branca.
revolto-me novamente. agito a bandeira mas ela espantosamente não se mexe. as flores estão murchas. a água secou. os vasos estão dispostos no muro, religiosamente como um terço. a minha vista alcança um funeral vestido de preto. a música do soluçar. volto as minhas costas e fixo-me numa parede branca.
domingo, janeiro 31, 2010
tragos de um horizonte perdido
bebidas na mesa. grãos de areia no chão. o cheiro intransmissível do bolo de chocolate ao lado da cafeteira. aos pés das mesa, junto à carpete, uma uva perdida. o vaso com histórias para contar e o envelope com novidades para dar. trepo as escadas rapidamente. chego a tempo de ver o sol a desaparecer no horizonte pela fresta da janela minúscula.
sábado, janeiro 16, 2010
golpes de estado
a substituição era possível, mas não impossível. a manta de retalhos cobria a cama e o gato no fundo dos cobertores ganhava coragem para abandonar o calor do lar. união.
o vazio das letras, os livros e as estantes perduram e avançam em manchete.
o destaque das frases feitas é uma verdade assumida.
sexta-feira, janeiro 15, 2010
rabiscos
a poeira paira. a nuvem levita. o poder de uma palavra. cheguei tarde à cama, e debrucei-me para levantar uma caneta. rasguei uma folha branca e, nos pedaços caídos do chão, decidi desenhar a alma. indesejável. impossível até.
até onde é possível rabiscar a alma ? não sei.
deito-me e entrego-me aos golpes de vista de quem está em vias de adormecer.
suposições e tentativas infrutíferas de escrever.
segunda-feira, setembro 28, 2009
postal do areal
ao ranger da porta acordo. no exterior o sol bate forte na calçada. ouço as vozes dos vizinhos na rua, o tilintar do metal das chaves do carro, o ladrar da chinha. o odor a café e pão com manteiga obrigam-me a despertar e a sair da cama. a parede com pratos partidos, o cheiro tão característico dos azulejos usados, as cadeiras de madeira e a vista da baixa. bebo a golada final do café e parto.
sexta-feira, abril 03, 2009
chuva
fixo o meu olhar no cascalho. uma bruma avizinha-se rapidamente sem darmos conta, rodeando-nos com todo o seu tremor húmido, triste e arruaceiro. começo a sentir na minha testa pequenas gotas de água. chuva. penso em proteger-me mas algo impele-me a ficar na rua, a sentir tudo o que me rodeia, o vento, a chuva e aquele longíquo chilrear. naquele instante sorrio. estou onde quero.
rodo sobre mim mesmo, abraço a árvore e cumprimento o meu pai ao longe no pomar. batatas e flores.
rodo sobre mim mesmo, abraço a árvore e cumprimento o meu pai ao longe no pomar. batatas e flores.
quinta-feira, março 05, 2009
sexta-feira, fevereiro 13, 2009
[um flashforward em termos temporais]
existem fóruns de internet realmente interessantes, nos quais todas as opiniões sejam válidas na generalidade outside web ?
quinta-feira, fevereiro 12, 2009
- constantes -
deito-me no chão e olho para baixo da cama. lá não encontro nada. só pó. revoltado levanto-me em direcção às cortinas alaranjadas. um outro mundo escondido por detrás delas. castelos, bicicletas. barris e baús. roupas da tropa, discos de vinil antigos e bonecos. estão sempre lá. nas posições familiares que nunca falham. ano após ano.
uma constante reconfortante.
terça-feira, fevereiro 10, 2009
manhãs de verão
ouço e respiro os sons típicos das manhãs.
buzinas e vozes humanas a ressoar no meu ouvido. a melodia das portas abrindo e fechando. um ou outro nome desconhecido. tão rápido surgem como desaparecem, subindo a rua em procissão, acordando todos com a sua passagem. fulminante.
um quotidiano matinal inolvidável.
segunda-feira, fevereiro 09, 2009
actos de bravura
sinto a vulnerabilidade no ar. pressinto uma luta desigual. o momento desperta-me do marasmo que me domava. desço as escadas de cimento e o carreiro de terra logo a seguir anuncia-se húmido e escorregadio. trivialidades num campo de rosas que cessam de existir.
sábado, fevereiro 07, 2009
[encontros finais]
remexi num baú, procurando algo. quis olhar não querendo olhar. diferenças e semelhanças nos ramos das árvores. lá fundo encontrei o que queria.
paz de alma.
paz de alma.
sábado, janeiro 31, 2009
consultórios
uma rua em obras. à esquerda, uma porta bege aberta. paredes de cimento esburacadas e alguma lama. entro e subo as escadas de madeira envernizada. uma sala de espera. fixo-me num quadro do planeta terra. elípticas. variados quadros e diplomas e ao centro uma grande mesa redonda ladeada por cadeiras. sinto que viajei no tempo e isso é desconfortante. dobro a folha de papel e parto.
quinta-feira, janeiro 29, 2009
pela noite dentro
cedo ao escuro. o ranger do chão de madeira, o bafio e aquele espanta-espíritos não me deixam adormecer. do outro lado do quarto uma sombra deitada na cama. lá fora sinto o miar dos gatos e os ramos das árvores. à medida que habituo os meus olhos à escuridão, olho fixamente para o chão. tapetes. velas. a disposição familiar das roupas e das malas. levanto a cabeça, para encontrar na parede caiada de branco, uma pintura.
Sorrio e deixo-me levar pelo sono.
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